O site Moda Brasil é um dos principais meios de informação sobre moda na internet brasileira. Referência em jornalismo de moda e produção acadêmica da área, o site mantem correspondentes por quase os estados brasileiros e principais centros difusores de moda no mundo.
A frente desta proposta visionária, que completou 10 anos em 2005, estava a professora dra. Kathia Castilho, uma das principais teóricas de moda no Brasil, atualmente professora do curso de Tecnologia Têxtil a USP leste, autora dos livros Moda e Linguagem e Discursos da Moda: semiótica, design e corpo , é colaboradora de diversos cursos de pós-graduação em moda e mestrados espalhados pelo Brasil. Nesta entrevista, Kathia faz um balanço dos 10 anos do site Moda Brasil, fala sobre imprensa de moda e novos projetos:
MODA BRASIL - O Site Moda Brasil completou 10 anos na Internet e foi pioneiro ao misturar informações factuais sobre moda, mercado e textos de cunhos mais acadêmicos. Como surgiu a idéia?
Káthia Castilho - O site nasceu de um encontro com a então diretoria de educação à distância da Anhembi Morumbi, Carmem Maia. Foi ela quem me fez ver um novo universo de possibilidades de entender o ensino, a produção acadêmica e a produção de conteúdo. Neste momento, eu coordenava um trabalho integrado proposto por várias disciplinas do curso de Negócios da Moda, cujo objetivo era justamente discutir a moda brasileira. Nossas primeiras páginas na web apresentavam o resultado destas pesquisas.
Posteriormente, como professora de história da moda, fomos construindo novos conteúdos como Grandes Nomes , Museu da Moda além de conquistarmos a parceria de outros professores. Tínhamos na época um pequeno grupo de alunas que participavam efetivamente da proposta de manutenção e criação do site e que foram aprendendo também a desenvolver páginas em html.
Naquele momento, existia uma carência imensa de bibliografia nesta área de estudo e as pesquisas e trabalhos que realizamos junto aos alunos precisavam ganhar um novo destino. O Moda Brasil casou como uma luva.
MB - A "comunidade" de colaboradores é uma das chaves para o sucesso do site. Como ela foi montada ao longo dos anos? e isso teve influência na edição do livro "Moda Brasil: fragmentos de um vestir tropical", um dos mais vendidos na área de moda?
Kathia – Tudo foi e ainda é, pura sedução! É verdade. Raramente tivemos verba para fazer com que o site funcionasse. Nossos colaboradores nunca receberam por qualquer um dos textos produzidos. Não tínhamos como remunerar. O Moda Brasil foi agregando amigos, colegas, jornalistas, professores, pesquisadores, alunos e criando uma grande rede de contato que por sua vez geravam novos contatos e possibilidades aos que alí publicavam. Paixão pelo projeto, entusiasmo pelo que fazíamos, acreditávamos muito na idéia e mantivemos e atualizamos o site independente de qualquer questão financeira.
O livro “Moda Brasil: fragmentos de um vestir tropical” atendeu a duas demandas: a primeira que os jornalistas escrevessem exatamente o assunto que nos interessava levar em aula para discutir com nossos alunos, e o segundo uma homenagem a estes profissionais, visto que na ausência completa de livros para pensarmos e refletirmos sobre a moda o que tínhamos à disposição para levarmos para a sala de aula eram exatamente os textos de jornais e revistas escritos por eles.
A idéia era justamente tirar o jornalista de seus usuais meios de comunicação trazendo-o para uma edição diferenciada. É um projeto que eu e a Carol (Garcia) sempre pensamos em retomar pois faltaram textos e ou estados importantes neste primeiro volume e que gostaríamos de incluí-los.
MB - Qual o balanço você faz da atuação e importância do site ao longo destes anos de existência?
Káthia - É um projeto que me orgulho muito de ter realizado. Acho que ainda que timidamente construímos uma realidade profissional diferente para muitos jornalistas que hoje atuam no mercado editorial de moda e que começaram a escrever em nosso site. Nos fez também pensar e articular novas idéias... cursos on-line, a pós-graduação em jornalismo de moda e estilo de vida, o laboratório de textos web, núcleo de pesquisas de moda, os links internacionais e os estaduais, fóruns...Construímos um grupo interessado em troca de idéias e na discussão efetiva.
Os alunos da Pós-Graduação de Moda on-line deram um novo ritmo e crescimento ao site. Tínhamos alunos em vários cantos do mundo e que se interessavam em contribuir. Hoje facilmente encontro o site nas referências bibliográficas de dissertações de mestrado, teses de doutorado. Aliás, o site já foi também objeto de estudo de várias pesquisas.
Acho importante também assinalar que iniciamos na era pré-histórica na internet e nos mantivemos em crescimento ainda que sem investimentos que nos possibilitasse estar mais próximo das novas tecnologias, das mudanças de design, de novas ferramentas da web etc...
Neste período assistimos muitos sites bem estruturados iniciarem suas propostas e fecharem, desistirem da web. Conseguimos comemorar nossa primeira década on-line. É uma grande vitória.
MB - Durante o tempo que esteve na direção do site houve muitos momentos marcantes, consegue lembrar algum fato particularmente importante?
Káthia – Impossível lembrar um só. Foram muitos momentos marcantes: quando lançamos o site em pleno congresso internacional de semiótica (27 de agosto 1995), quando fechamos acordo com o UOL, quando recebi a primeira jornalista que veio especialmente de Curitiba para fazer uma entrevista e documentar o processo de produção do Moda Brasil... o nome dela??? Carol Garcia! a primeira contribuição externa que tivemos, e que não só se empolgou com o projeto como também se aproximou cada vez mais. Foi nossa primeira editora é assina a editoria até hoje. É uma jornalista maravilhosa. Seus textos sintetizam o que sempre buscávamos para o site. Hoje, a Carol, mais do que jornalista é uma excelente pesquisadora, acadêmica, professora além de uma amiga e parceira de vida.
Hummm... Cristina Lueth, grande amiga e designer, apaixonada pela idéia passou madrugadas criando gratuitamente uma identidade visual, linda páginas que só fez com que nossa paixão aumentasse ainda mais.
Ganhamos um prêmio nacional ao sermos escolhidos como um dos 5 melhores sites da área de moda no país.
Estivemos em feiras apresentando o site e ensinando como realizar pesquisas de moda na web... era tudo muito novo. Acompanhamos o SPFW desde sua primeira edição. Fizemos fóruns promocionais com várias empresas interessantes. Levamos o Moda Brasil para a rádio onde fazíamos pequenas chamadas e dávamos notas curtas sobre as matérias que estariam on-line naquele dia.
Passamos de edição semanal para atualização diária. Ganhamos no ano passado o prêmio de melhor projeto educacional concedido pelo IFFIT que é a associação de 26 escolas internacionais de moda. Enfim... muitos momentos marcantes!
MB - Como você avalia a contribuição acadêmica do Moda Brasil com relação a difusão da cultura de moda no país?
Káthia - Acho que o Moda Brasil vem cumprindo seu papel. A internet é o meio de comunicação que deve crescer, tem a rapidez e permite a integração participativa dos leitores que passam a ser colaboradores, debatedores. Não existe nada tão contemporâneo. Os mais jovens crescem se relacionando essencialmente pela internet. Existem muitas possibilidades de criar e articular novas idéias criando revistas com conteúdos diferenciados.
Acho que o que temos hoje é a grande maioria de sites utilizando um modelo fechado, engessado, sem grandes ousadias. Acredito que se deva inovar promover uma inversão de papéis.
MB - Ainda há necessidade de veículos mais voltados para textos de análise e reflexão na Moda no Brasil?
Káthia - Sempre!!! No Moda Brasil e em todo lugar onde existirem textos de moda. Qualquer veículo deveria ter a obrigatoriedade de construir textos com uma fundamentação e articulação de idéias mais bem construídas. O jornalista precisa sim se especializar, entender que universo significativo lhe diz respeito. Textos opinativos sem análises não cabem mais em nenhum veículo, na minha opinião.
MB - Além do trabalho junto ao Moda Brasil, você coordena a coleção Moda & Comunicação da editora Anhembi Morumbi que tem lançado importantes títulos no mercado, servindo de norte para diversos profissionais e pesquisadores de moda. Fale sobre a coleção e novos projetos...
Káthia - Hoje percebo que a coleção nasceu da mesma preocupação que orientava o nascimento do site. No próximo mês, com mais dois livros, estaremos completando 10 títulos publicados. O mercado cresceu, nossos alunos se formaram, os professores foram em busca de crescimento, fizeram suas pesquisas de mestrado, doutorado, vasculhando documentos, discutindo a bibliografia de cada área. Crescemos também. Nossas pesquisas hoje dialogam com a de instituições internacionais.
A publicação de nossos textos em livros nos permite justamente ampliar este diálogo com nossos colegas, com nossos alunos e conhecermos áreas de estudos diferenciadas. É uma tentativa também de mostrarmos nossa cara, de aproximarmos nossas reflexões do contexto em que vivemos. As editoras, muitas vezes, traduzem livros que já são obsoletos no mercado internacional.
Precisamos discutir demarcar nosso caminho, nossas escolhas, nossa necessidade de diálogo. Tem sido um prazer imenso coordenar esta coleção, o que significa ler pesquisas inéditas e interessantíssimas que espero poder estar sempre trazendo a um número maior de leitores através desta publicação.
MB - O que você diria para os milhares de internautas que acessam todos os dias ao Moda Brasil, agora que você não está mais na direção, mais com certeza é um deles?
Káthia - Sem dúvida! Quando abro a internet a minha página de acesso é o Moda Brasil. Sempre foi. Diria que nossa vontade é de mudança. Eu e a Carol juntas a vários colaboradores e alunos já desenhamos pelo menos uns 20 projetos diferentes. Primeiro me chamavam de a mãe do Moda Brasil, passei a ser a avó (risos) enfim... tudo tem um ciclo e ainda que este formato se sustente o desejo de revitalizá-lo é grande.
É o que mais desejo que aconteça. Me entusiasma ver o trabalho que você Aldo, está realizando no site. Gosto destas alternativas, desta busca por novos caminhos, de incluir os leitores na discussão. Espero que uma nova era do Moda Brasil se inicie. Tomara!
Aldo Clécius é jornalista, correspondente do Moda Brasil na Bahia, pós-graduado em Moda e Comunicação pela Anhembi Morumbi e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Moda da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

